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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quando o tempo é inerte...



Finjo não saber que o tempo passa logo
Finjo pra tentar conter a minha dor
Finjo não notar, mas toda noite choro
Choro de saudade do que já se foi

Eita, ainda penso muito no  (nosso?) lance mal resolvido. Ainda sonho com o dia que você vai chegar e abrir a porta do meu quarto... Não consegui resolver essa lide de minha alma. Tentei. Lutei. Mas tudo foi como remar contra a maré.

Ah que bom seria se o tempo voltasse
Pra fazer tudo de novo, meu amor!
É como se a vida nunca acabasse
Reviver os passos seja como for

Talvez eu não quisesse voltar ao passado. Talvez fosse melhor eu nunca ter te conhecido. Talvez minha vida, sem ter esbarrado com você, fosse bem melhor... Talvez, talvez, talvez... Nunca irei saber ao certo. Mas é foda o que sinto ainda.

Lembrar do que foi bom
Mas também quero tropeçar nas mesmas pedras do caminho, refazer a mesma rota que o me coração traçou

No fundo sinto que valeu a pena, não obstante meu sofrimento ser superior e mais duradouro – até hoje?! – que o prazer vivido juntos... Contudo, acho (não tenho certeza!) que se diante de mim eu tivesse uma oportunidade de te esquecer ou voltar a viver tudo como antes, talvez (sempre um talvez!) eu aceitasse reviver...

Deixa eu voltar quero voltar, entrar na máquina do tempo é só ilusão eu sei, quero voltar quero viver o mesmo sonho e de novo encontrar você!

__________________________________________


Essas leseiras surgiram quando eu escutava essa música de Flávio  Venturini. A canção é linda. Ótima para viver uma dor de cotovelo boa, daquelas que arrancam lágrimas, que deixa a gente irado, que meche com a alma... De preferência com uma boa bebida também.





Às vezes, chego a pensar que aquela conversa de que o tempo cura tudo é pura ilusão. Conheço pessoas que sofrem, depois de muitos anos, de décadas, pela perda um ente querido. Conheço pessoas que se divorciaram há anos, mesmo assim nunca conseguiram se envolver afetivamente com outra pessoa. Acho que é melhor aprender a conviver com essa situação do que se esforçar para que ela acabe... 


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Um convite à Doce Revolução... Vem e vê!



O REINO É SIMPLES!

O Evangelho é a certeza de que Deus, em Cristo, se reconciliou com o mundo!

Um convite à Doce Revolução... Vem e vê!


Artigo 1 –
Fica decretado que agora não há mais nenhuma condenação para quem está em Jesus, pois, o Espírito da Vida em Cristo, livra o homem de toda culpa para sempre.

Artigo 2 – Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive os Sábados e Domingos, carregam consigo o amanhecer do Dia Chamado Hoje, por isso qualquer homem terá sempre mais valor que as obrigações de qualquer religião.

Artigo 3 – Fica decretado que a partir deste momento haverá videiras, e que seus vinhos podem ser bebidos; olivais, e que com seus azeites todos podem ser ungidos; mangueiras e mangas de todos os tipos, e que com elas todo homem pode se lambuzar.

Parágrafo do Momento: Todas as flores serão de esperança; pois que todas as cores, inclusive o preto, serão cores de esperança ante o olhar de quem souber apreciar. Nenhuma cor simbolizará mais o bem ou o mal, mas apenas seu próprio tom, pois, o que daí passar estará sempre no olhar de quem vê.

Artigo 4 – Fica decretado que o homem não julgará mais o homem, e que cada um respeitará seu próximo como o Rio Negro respeita suas diferenças com o Solimões, visto que com ele se encontra para correrem juntos o mesmo curso até o encontro com o Mar.

Parágrafo que nada pára: O homem dará liberdade ao homem assim como a águia dá liberdade para seu filhote voar.

Artigo 5 – Fica decretado que os homens estão livres e que nunca mais nenhum homem será diferente de outro homem por causa de qualquer Causa. Todas as mordaças serão transformadas em ataduras para que sejam curadas as feridas provocadas pela tirania do silencio. A alegria do homem será o prazer de ser quem é para Aquele que o fez, e para todo aquele que encontre em seu caminhar.

Artigo 6 – Fica ordenado, por mais tempo que o tempo possa medir, que todos os povos da Terra serão um só povo, e que todos trarão as oferendas da Gratidão para a Praça da Nova Jerusalém.

Artigo 7 – Pelas virtudes da Cruz fica estabelecido que mesmo o mais injusto dos homens que se arrependa de seus maus caminhos, terá acesso à Arvore da Vida, por suas folhas será curado, e dela se alimentará por toda a eternidade.

Artigo 8 – Está decretado que pela força da Ressurreição nunca mais nenhum homem apresentará a Deus a culpa de outro homem, rogando com ódio as bênçãos da maldição. Pois todo escrito de dívidas que havia contra o homem foi rasgado, e assustados para sempre ficaram os acusadores da maldade.

Parágrafo único: Cada um aprenderá a cuidar em paz de seu próprio coração.

Artigo 9 – Fica permanentemente esclarecido, com a Luz do Sol da Justiça, que somente Deus sabe o que se passa na alma de um homem. Portanto, cada consciência saiba de si mesma diante de Deus, pois para sempre todas as coisas são lícitas, e a sabedoria será sempre saber o que convém.

Artigo 10 – Fica avisado ao mundo que os únicos trajes que vestem bem o homem diante de Deus não são feitos com pano, mas com Sangue; e que os que se vestem com as Roupas do Sangue estão cobertos mesmo quando andam nus.

Parágrafo certo: A única nudez que será castigada será a da presunção daquele que se pensa por si mesmo vestido.

Artigo 11 – Fica para sempre discernido como verdade que nada é belo sem amor, e que o olhar de quem não ama jamais enxergará qualquer beleza em nenhum lugar, nem mesmo no Paraíso ou no fundo do Mar.

Artigo 12 – Está permanentemente decretado o convívio entre todos os seres, por isso, nada é feio, nem mesmo fazer amizades com gorilas ou chamar de minha amiga a sucuri dos igapós. Até a “comigo ninguém pode” está liberta para ser somente a bela planta que é.

Parágrafo da vida: Uma única coisa está para sempre proibida: tentar ser quem não se é.

Artigo 13 – Fica ordenado que nunca mais se oferecerá nenhuma Graça em troca de nada, e que o dinheiro perderá qualquer importância nos cultos do homem. Os gasofilácios se transformarão em baús de boas recordações; e todo dinheiro em circulação será passado com tanta leveza e bondade que a mão esquerda não ficará sabendo o que a direita fez com ele.

Artigo 14 – Fica estabelecido que todo aquele que mentir em nome de Deus vomitará suas próprias mentiras, e delas se alimentará como o camelo, até que decida apenas glorificar a Deus com a verdade do coração.

Artigo 15 – Nunca mais ninguém usará a frase “Deus pensa”, pois, de uma vez e para sempre, está estabelecido que o homem não sabe o que Deus pensa.

Artigo 16 – Estabelecido está que a Palavra de Deus não pode ser nem comprada e nem vendida, pois cada um aprenderá que a Palavra é livre como o Vento e poderosa como o Mar.

Artigo 17 – Permite-se para sempre que onde quer que dois ou três invoquem o Nome em harmonia, nesse lugar nasça uma Catedral, mesmo que esteja coberta pelas folhas de um bananal.

Artigo 18 – Fica proibido o uso do Nome de Jesus por qualquer homem que o faça para exercer poder sobre seu próximo; e que melhor que a insinceridade é o silencio. Daqui para frente nenhum homem dirá “o Senhor me falou para dizer isto a ti”, pois, Deus mesmo falará à consciência de cada um. Todos os homens e mulheres que crêem serão iguais, e ninguém jamais demandará do próximo submissão, mas apenas reconhecerá o seu direito de livremente ser e amar.

Artigo 19 – Fica permitido o delírio dos profetas e todas as utopias estão agora instituídas como a mais pura realidade.

Artigo 20 – Amém!

Caio e tantos quantos creiam que uma revolução não precisa ser sem poesia.


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Amados, “nossa tentativa é de experimentar, provar e viver o eterno Vinho Novo em Odres Novos! Isso porque existem muitos Odres Antigos, que são só odres, são só ‘containers’, eles não fazem parte do conteúdo do Evangelho.

O Evangelho é o Vinho, o resto é apenas, generacional, tem a ver com o tempo, com a hora, com a ocasião. Só que nós, cristãos, acabamos institucionalizando o Odre, e o Odre ganhou uma importância tão grande, que a gente briga, mata e morre pelo Odre, mas não tem ninguém interessado com a qualidade do Vinho! E se é assim, nós não estamos aqui para repetir os modelos de Odres que existem, mas estamos pedindo a Deus que não nos falte o conteúdo do Vinho Novo do Evangelho para pacificar o coração de cada um, em nome de Jesus.”

Agora é com todo aquele que crê!

Não adianta brigar contra a Potestade da Religião. Ela se alimenta da briga contra ela. Sim! O ódio a alimenta e a rejeição a fortalece em seus ódios. Assim, é deixá-la! Pois, a única coisa que pode ajudá-la é justamente o ser deixada só.

Quem ama o Senhor, que ame os irmãos; e que não fique reclamando da “igreja”, nem perdendo tempo com ela e sua brigas sem fim, mas, dedique-se a pastorear as ovelhas e cordeiros de Jesus, conforme Ele disse a Pedro que fizesse.

Sim! Quem ama o Senhor e Sua Palavra, reúna os parentes e amigos e comece a adorar a Deus com eles, estudando e crendo na Palavra, orando uns pelos outros, não se intrometendo nas vidas uns dos outros, mas também não permitindo abusos de uns para com os outros, posto que o Caminho é de Graça, Amor e Perdão; e não a espinhenta vereda da disputa, da supremacia e do abuso; posto que a Graça jamais será a Graxa dos descomprometidos.

Se alguém ouvir e crer; e levantar-se para a Vida em nome de Jesus, esse é membro da Doce Revolução.

Ora, só não vê quem não quer. Pois a Figueira está dando todos os sinais de que o Verão está às portas.

Nele, que nos chama a nada que não transforme segundo o Evangelho.

Em amor.

Caio Fábio

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Da esperança - Ricardo Gondim

Enquanto li esse texto do pastor Ricardo Gondim, vinha em minha mente um trecho do profeta Jeremias, em suas Lamentações: 'Quero trazer à memória aquilo que me traz esperança'. Gondim é o cara...

Da esperança

Esperança já foi criticada como armadilha; ao prometer um futuro melhor, enganaria os incautos. Amaziada com a utopia, adiaria as iniciativas transformadoras do presente. Os corojosos, já se acreditou, não precisam de suas juras futeis, e só os covardes se valem de seus acenos.

Esperança se tornou substantivo que se desgastou por uso excessivo; na boca de demagogos, palavra piedosa que não comunica coisa alguma.

Porém, Esperança permanece o alento que resta aos pobres. Quem aguarda novos céus e nova terra levanta a cabeça. Por sua causa, na Páscoa, os judeus se cumprimentaram em guetos imundos: “No próximo ano, em Jerusalém”. Inspirados na Esperança, escravos negros cantaram nos velórios: “Free at last, free at last!”.

Esperança é irmã mais frágil da fé. Sua fragilidade vem da insustentabilidade. Esperança não nasce de certezas. O chão da Esperança, inseguro como areia movediça, será sempre improvável. Nas Escrituras, lê-se que “a Esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo?” (Romanos 8.24).

Mesmo incerta e incapaz de fazer promessas absolutas, Esperança alimenta o herói em sua gesta heróica. Animado pelo impossível, ele desenvolve sensibilidades que adensam os sonhos da Cidade futura, onde paz e justiça se beijarão.

Esperança espera, mas jamais obedece a mecânica do tempo. Nela, não existem cronogramas, relógios e planejamentos estratégicos. Enquanto flui, Esperança não se obriga senão que satisfará os que se engajarem pela vida. O galardão da Esperança resume-se a fazer da excelência um fim em si mesmo, jamais um meio.

A cor da Esperança dizem ser verde. Então, eis o tom que anima o vencido a continuar resoluto. Só ela ressuscita audácia em corações arruinados. Esperança, ao devolver alegria ao desiludido, lambuzado de cinza, nunca se contenta com uma só tonalidade. Ela é dona de todas as cores, na esperança mora um arco íris.

Esperança exorciza mau agouro, cala pessimistas e revoga os decretos do Destino. Esperança não sobrevive de quimeras; não procura construir castelos nas nuvens; não doura pílulas; não promove viagens alucinógenas. Todo esperançoso se torna companheiro de valentes, de intrépidos, de aventureiros. Neles, pulsa o coração de um batalhador, de onde surge a poesia mais inspiradora.

Esperança se move de trás para frente. Réstias de sua luz emanam desde o futuro longínquo para iluminar o presente. Esperança é a  força derradeira que anima o velho e o brilho que anima os olhos da mãe quando embala o filho.

Abraão, Moisés, Don Quixote, Martin Luther King Jr., e o Eródoto, meu pai, foram homens que navegaram nas águas da Esperança; oceano que conhecemos tão pouco, mas que sem ele não sobreviveríamos.

Soli Deo Gloria

sábado, 28 de janeiro de 2012

Um ano longe do armário



Ia deixar sem registrar essa data. Mas pensei durante toda a semana e durante todo esse dia. A liberdade não tem preço. 


Conhecer quem de fato ama você (amigos de verdade e familiares que você pode contar) é a melhor coisa do mundo. Poder viver sem medo, sem temor (apesar de tantos homofóbicos por aí), ser você mesmo é maravilhoso.


Sair das sombras, das trevas, do armário que aprisiona e sufoca todos e todas que fogem aquilo que uma sociedade heteronormativa diz ser nomal é sem comparação. 


Uma professora uma vez me disse que sair do armário é uma experiência libertadora. Um ano depois eu confirmo isso. Há um ano, dia 27 de Janeiro, meu armário era implodido.


Nesse período conheci pessoas maravilhosas, que me ajudaram em vários momentos. Por algum tempo pensei que ia morrer, que ia sucumbir a tudo que enfrentei.


O primeiro semestre na faculdade foi terrível. Mal eu prestava atenção nas aulas. Alguns colegas notaram uma diferença, mas eu não me sentia a vontade para abrir meu coração. A cada instante eu pensava quando ia deixar a faculdade.


 A morte para mim não era temida. Era bem vinda. Durante muito tempo eu quis morrer. Não pensava em me matar, como antes, mas se a morte viesse me buscar seria um alívio diante de tanta dor que passei.


"Por que, culturalmente, nós nos sentimos mais confortáveis vendo dois homens segurando armas do que dando as mãos?" perguntou Ernest Gaines. "A sociedade não gosta, o povo acha estranho", canta Cássia Eller.


No segundo semestre tentei recuperar o tempo perdido. Assim que rompeu o primeiro de julho eu disse pra mim mesmo que aquela era uma nova fase na minha vida. E foi.

Voltei a ler com força. A estudar mais ainda. Tentei duas seleções de mestrado em história, não logrei êxito, mas a experiência foi valiosa. Participei das conferências LGBT (local em Guarabira, estadual em João Pessoa e nacional em Brasília). Conheci muita gente. Comecei a reescrever minha história.

O que achei legal foi que minha saída do armário coincidiu com o ano que o judiciário brasileiro, através do STF, reconheceu a união estável entre homossexuais e o STJ reconheceu a possibilidade jurídica do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Nunca antes a TV Brasileira abordou tanto a questão LGBT nas novelas, debates. Também foi o ano que o discurso homofóbico mais forte ficou no Congresso Nacional, o ano que mais matou lésbicas, gays e travestis no Brasil.

Passei um tempo para reconstruir uma nova vida, mas hoje garanto que, se não sou completamente feliz, por não ter realizado meus sonhos ainda, estou a caminho. Muita coisa sei que vou enfrentar. Mas o principal já enfrentei que foi a minha família. O resto é de somenos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sexta economia. E daí?

No fim do ano passado, muitos brasileiros festejaram o nosso país ter sido elevado, segundo o jornal britânico The Guardian, a sexta maior economia do mundo, superando o Reino Unido. Não vou negar a minha alegria, mas fui bem modesto com minha excitação e comecei a pensar sobre o nosso crescimento econômico. Infelizmente, a realidade social brasileira está muito aquém de sua posição econômica. Coloquei no Facebook um comentário a esse respeito. Um amigo virtual, que mora há anos na Inglaterra, disse “grande coisa”.


Os indicadores sociais brasileiros são uma vergonha. Quando se comparam os números brasileiros relacionados à saúde, educação e inovação com os de outras nações, o país continua na rabeira, perdendo para vizinhos, como Chile e Argentina, ou nações do leste europeu, como Estônia e Eslováquia. Meu amigo virtual disse mais ainda: “a Inglaterra perdeu a posição pro Brasil, mas aqui não existem mendigos nas ruas, escolas de má qualidade, os hospitais públicos fazem inveja a qualquer hospital privado do Brasil”.


Não se podem negar os avanços ocorridos nos últimos anos no país. Mas muita coisa precisa ser feita. Temos muito que avançar. O Brasil possui um sistema público de saúde único, uma vez que nenhum país, com mais de 100 milhões de habitantes, possui algo parecido. Mas o SUS precisa melhorar. Muitas pessoas passam meses pra conseguir uma cirurgia. Os hospitais sempre super lotados. Cidadãos morrem nas filas, esperando atendimento médico.


Na área da educação, muitos países do mundo erradicaram o analfabetismo há muitos e muitos anos. Nós ainda temos milhões de pessoas que não sabem ler e nem escrever o próprio nome! Outros milhões lêem um texto simples, mas não compreendem nada. Precisamos investir pesado na educação básica, começando do ensino infantil, muitas vezes deixado sem a devida atenção. Que nossos adolescentes e jovens cheguem ao ensino médio, depois de ter passado por um ensino fundamental bem feito, preparados para os desafios da nova fase escolar. Infelizmente, o que se observa é que o ensino médio em quase nada se diferencia do fundamental.


Como o espaço é pequeno, vou ficar apenas nesses dois aspectos da realidade brasileira, a saúde e a educação, em outra oportunidade vamos abordar a violência, a corrupção e a miséria ainda bastante presente no Brasil. É fundamental, portanto, que o crescimento econômico seja acompanhado de crescimento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). De que adianta ser a sexta economia do mundo, passando vários países europeus, se temos índices de desenvolvimento humano comparáveis a países africanos? Quando os índices sociais estiverem no mesmo patamar que os econômicos, aí sim teremos motivos fortes pra comemorar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Educação de qualidade! Quando?


Dizer que a educação é o caminho para qualquer país se desenvolver com qualidade virou lugar comum. Políticos, empresários, professores, estudantes, organizações da sociedade civil, enfim, todas as pessoas e entidades que direta ou indiretamente estão envolvidas com a educação falam a todo tempo sobre isso.

O exemplo da Coréia do Sul é sempre citado para fundamentar o discurso da educação enquanto meio para o crescimento de uma nação. Em 1958, Coréia do Sul e Gana tinham o mesmo Produto Interno Bruto (PIB) per capita. Na década de 60, o país era um dos mais pobres do mundo, destroçado por uma guerra que destruiu 25% da riqueza nacional e matou 5% da população civil. Hoje, o país tem um PIB per capita quase três vezes superior ao brasileiro. Como a Coréia do Sul conseguiu isso? Investindo pesado em educação.

O Ensino Fundamental no Brasil foi praticamente universalizado. O desafio agora é fazer o mesmo com o Ensino Médio. Mesmo assim, o analfabetismo no Brasil continua grande. Muitos programas já foram lançados por vários governos. Muito dinheiro público investido. Contudo, pouca coisa mudou. Conheço pessoas que já passaram por vários programas de alfabetização e ainda assim não conseguem ler ou escrever.

O Ensino Superior foi bastante expandido nos últimos anos. Mesmo assim continuamos atrasados. Apenas 11% dos jovens entre 18 e 24 anos têm acesso ao ensino superior no Brasil. Na América Latina e Caribe, o índice é em torno de 32%. Já a Coréia se aproxima da universalização do ensino superior, com mais de 80% dos jovens matriculados em algum curso pós-secundário.

A luta agora é para que 10% do PIB sejam destinados para a educação. Nada mais justo. Mas tenho receio de o quanto desses recursos não será desviado por gestores nada comprometidos com a coisa pública e em especial com a educação.  A corrupção é uma praga que assola o país de norte a sul, de leste a oeste, envolvendo pessoas de todos os partidos, seja de direita, centro ou esquerda.

O senador Cristovão Buarque (PDT – DF) apresentou um projeto que obriga os filhos dos políticos ocupantes de cargos eletivos a estudarem em escolas públicas. Óbvio que essa proposta nunca será aprovada. Mas, penso que a sociedade deveria se mobilizar para a sua aprovação. Só assim a educação iria mudar. E penso que os políticos deveriam ser obrigados também a usar os hospitais públicos e sentir na pele o que milhões de brasileiros sentem todos os dias com a falta de atendimento médico adequado.

O Brasil só terá uma educação pública de qualidade, da mesma forma que existe em vários países do mundo, quando o neto de um ano da presidenta Dilma Rousseff, chegar à idade escolar, e for estudar numa escola pública do mesmo jeito que o filho de um trabalhador assalariado. Quando isso acontecer o Brasil terá avançado e se desenvolvido.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O “Girassol” de Alagoinha





O “Girassol” de Alagoinha *

Da mesma forma que um Girassol,

Ele esquadrinha onde está a luz.

Esta busca que parece interminável, incansável e íngreme. 

Pelo brilho do seu coração.

Em certos momentos chegou a encontrar,

Mas eram satélites e não astros.

E com o tempo, a luz se dissipou no espaço.

Hoje, nada mais são do que simples reminiscências.

Como uma águia, voando cada vez mais alto,

Ele continua sua busca.

Ela pode está submersa e dormindo, esperando seu olhar,

Sonhando com o mar.

Este mesmo mar que faz o “Girassol” olvidar, por um instante,

De tudo e de todos.

Que o impulsiona a seguir em frente, olhando em direção ao Sol.

Ele conhece o segredo do mar, 

A sua imensidão o aconchega e tranqüiliza. 

Ao contemplar as ondas beijando os rochedos.

Esta imagem o faz regressar. 

E quando se volta,

Seus olhos verdadeiros e sensíveis fitam 

Em uma flor, que para ele tem um espetacular sentido.

Um imponente “Girassol”,

No mesmo instante vem em sua mente, 

Esperança, Vida e Alegria.

Sua relação é tão forte,

Que se confundem um com o outro.

Só mesmo o coração para entender, a relação entre 

Luz, Mar e Girassol.


* Por - Wagno Almeida Lira (04/01/2012)

PS: Recebi essa poesia de meu amigo Wagno (Facebook). Achei linda. Cada vez que leio eu me emociono. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A escola e o bullying

A escola é uma instituição fundamental na construção de nossas identidades pessoais. Os anos passados, da infância à juventude, no espaço escolar, marcam para sempre a vida dos estudantes. Ter uma escola aberta à diversidade, ao respeito, à pluralidade é de suma importância na construção do cidadão do futuro.

 

Diante disso, a violência e insultos no lugar do respeito, aprendizagem e brincadeiras, no espaço de ensino por excelência, destoa de seus propósitos vitais. Essa realidade é vivenciada por centenas de crianças e adolescentes vítimas de bullying nas escolas, ambientes que têm como dever a proteção e a formação cidadã.

 

O bullying “se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder”.

 

O pior de tudo, além da agressão sofrida por alunos, seja pela cor, orientação sexual, classe social, forma física, religião ou qualquer outro fator que contribua para o bullying escolar, é o despreparo dos professores e professoras para lidarem com a situação. Alguns silenciam, outros colaboram, através das risadas, com a violência escolar.

 

Segundo a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), a educação, visa o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Além disso, o ensino deve ser ministrado com base no respeito à liberdade e apreço à tolerância. Ou seja, a educação oferecida nas escolas, deve propiciar à criança, ao adolescente e ao jovem, as condições necessárias para o crescimento intelectual, emocional e físico dessas pessoas.

 

Portanto, se queremos ter no futuro pessoas que saibam respeitar o outro, o diferente, porém semelhante na humanidade comum, se queremos uma sociedade menos violenta, menos agressiva, devemos começar pela base de tudo, ou seja, a educação, cortando os males que infestam o ambiente escolar, como o bullying, capacitando professores (as) e trabalhando com um ensino que promova uma cultura de paz nas escolas

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ser gay é pecado?


Ser gay é pecado?
(Cynara Menezes)
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A representação de São Sérgio e São Baco, símbolos da causa LGBT
Em seu programa de tevê e nos cultos, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, um dos maiores porta-vozes do conservadorismo religioso no País, costuma repetir a ladainha: "Homossexualidade na Bíblia é pecado. Pode tentar, forçar, mas é pecado". Mas será mesmo pecado ser gay? Não, contestam, baseados na interpretação da mesma Bíblia, sacerdotes cristãos, tanto católicos quanto evangélicos. Para eles, a mensagem de Jesus era de inclusão: se fosse hoje que viesse à Terra, o filho de Deus teria recebido os homossexuais de braços abertos.
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"A orientação sexual não é o que vai definir a nossa salvação
"Orientação sexual não é o que vai definir a nossa salvação", afirma o bispo primaz da Igreja Anglicana no Brasil, dom Maurício Andrade. "É muito provável que as pessoas homoafetivas fossem acolhidas por Jesus. O Evangelho que ele pregou foi de contracultura e inclusão dos marginalizados", opina. Segundo o bispo, ao mesmo tempo que não há nenhuma menção à homossexualidade no Novo Testamento, há várias passagens que demonstram a pregação de Jesus pela inclusão. Não só o conhecido "quem nunca pecou que atire a primeira pedra" à adúltera Maria Madalena.
No Evangelho de João, capítulo 4, Jesus está a caminho da Galileia, partindo de Jerusalém. Cansado, decide descansar ao lado de um velho poço, em plena região da Samaria, cujos habitantes eram desprezados pelos judeus. E inicia conversação com uma mulher samaritana que vinha buscar água, e lhe oferece a salvação da alma, para espanto de seus próprios apóstolos, que a consideravam ímpia. Também quando Jesus vai à casa de Zaqueu, o coletor de impostos decidido a passar a noite lá, os discípulos murmuram entre si que se hospedaria "com homem pecador". Mas Jesus não só o faz como também oferece a Zaqueu, homem rico tido como ladrão, a salvação. "Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão."
"Jesus inaugura o momento da Graça, os Evangelhos atualizam vários trechos do Velho Testamento. Ou alguém pode imaginar apedrejar pessoas hoje em dia?", questiona dom Maurício, para quem a interpretação da Bíblia deve se basear no tripé tradição, razão e experiência cotidiana. "Quem interpreta que a Bíblia condena a homoafetividade está sendo literalista. Cada texto bíblico está inserido num contexto político, histórico e cultural, não pode ser transportado automaticamente para os dias de hoje. Além disso, a Igreja tem de dar resposta aos anseios da sociedade, senão estaremos falando com nós mesmos."
Também anglicano, o arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz em 1984, lançou em março deste ano o livro Deus Não É Cristão e Outras Provocações, que traz um texto sobre a inclusão dos cidadãos LGBT à Igreja e à sociedade. Para Tutu, a perseguição contra os homossexuais é uma das maiores injustiças do mundo atual, comparável ao apartheid contra o qual lutou na África do Sul. "O Jesus que adoro provavelmente não colabora com os que vilipendiam e perseguem uma minoria já oprimida", escreveu. "Todo ser humano é precioso. Somos todos parte da família de Deus. Mas no mundo inteiro, lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros são perseguidos. Nós os tratamos como párias e os fazemos duvidar que também sejam filhos de Deus. Uma blasfêmia: nós os culpamos pelo que são."
Nos Estados Unidos, a Igreja Anglicana foi a primeira a ordenar um bispo homossexual, em 2004. "Não por ser gay, mas porque a Igreja reconheceu o serviço e o ministério dele", alerta dom Maurício. Foi com base na demanda crescente de respostas por parte dos fiéis homossexuais ou com -parentes e amigos gays que os anglicanos começaram a rever suas posturas, a partir de 1997. No ano seguinte, foi feita uma recomendação para que os homoafetivos fossem escutados, embora a união de pessoas do mesmo sexo ainda fosse condenada e que se rejeitasse a prática homossexual como "incompatível" com as Escrituras.
No Brasil, onde possui mais de 60 mil seguidores, a Igreja Episcopal Anglicana realizou em 2001 a primeira consulta nacional sobre sexualidade, quando seus fiéis decidiram rejeitar "o princípio da exclusão, implícito na ética do pecado e da impureza", e fazer uma declaração pública em favor da inclusividade como "essência do ministério encarnado de Jesus". Em maio deste ano, os anglicanos divulgaram uma carta de apoio à decisão do Supremo Tribunal Federal de permitir a união civil entre pessoas do mesmo sexo, baseados não só na defesa da separação entre Estado e Igreja como no reconhecimento de que as relações homoafetivas "são parte do jeito de ser da sociedade e do ser humano".
Com o reconhecimento pelo Superior Tribunal de Justiça, em 25 de outubro, da união civil de duas lésbicas, é possível que a intolerância religiosa contra os homossexuais volte a se acirrar. No Twitter, Malafaia atiçava os seguidores a enviar e-mails aos juízes do Tribunal pedindo a rejeição do recurso. Em vão: a união entre as duas mulheres gaúchas, juntas há cinco anos, ganhou por 4 votos a 1.
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Homossexual, o padre Alison não tem função como pároco. Foto: Olga Vlahou
A partir da primeira decisão do STF, foi criada, informalmente até agora, uma frente religiosa pela diversidade sexual, que reúne integrantes de diversas igrejas: batistas, metodistas, anglicanos, luteranos, presbiterianos, católicos e pentecostais. Coordenador do grupo, o metodista Anivaldo Padilha (pai do ministro da Saúde, Alexandre Padilha) diz que a homossexualidade é hoje um dos temas que mais dividem as igrejas, tanto evangélicas quanto católicas. "Quem alimenta o preconceito são as lideranças. Os fiéis manifestam dificuldade em obter respostas, porque no convívio com amigos, colegas ou mesmo parentes que sejam homossexuais não veem diferença."
Mais: segundo Padilha, a proporção de homossexuais entre os evangélicos é bastante similar à da sociedade brasileira como um todo. Sua convicção vem da pesquisa O Crente e o Sexo, do Bureau de Pesquisa e Estatística Cristã, entidade que possui o maior banco de dados com e-mails de evangélicos brasileiros - mais de 1,6 milhão. Na pesquisa, foram ouvidos pela internet 6.721 solteiros evangélicos de todo o País, entre 16 e 60 anos. Os resultados, divulgados em junho deste ano: 5,02% dos evangélicos tiveram uma experiência homossexual e 10,69% disseram desejar experimentar ter relações com pessoas do mesmo sexo.
Uma pesquisa feita em 2009 pelo Ministério da Saúde com os brasileiros em geral apontou que 7,6% das pessoas- entre 15 e 64 anos haviam tido relações com o mesmo sexo na vida. Quer dizer, a diferença entre os hábitos sexuais dos crentes e do resto da população é quase nula. "A questão não é teológica", argumenta Padilha. "O que existe é que esse tema tem sido utilizado politicamente pela direita brasileira. Como não existe mais o comunismo, conseguem manipular a opinião pública assim. Eles têm o direito de expressar opiniões, mas não se pode impor ao Estado conceitos de pecado que não dizem respeito aos que professam outras religiões, ou nenhuma."
De acordo com historiadores, a posição religiosa em relação à homossexualidade mudou ao longo dos séculos: de mais tolerante para menos. O americano John Boswell, pesquisador da Universidade Yale que morreu de Aids- aos 47 anos em 1994 e que dedicou a vida acadêmica a investigar a homossexualidade relacionada ao cristianismo, afirmava que a Igreja Católica não condenou as relações entre o mesmo sexo até o século XII. Ao contrário: o historiador, contestado por alguns e aclamado por outros, revelou no livro O Casamento entre Semelhantes - Uniões entre pessoas do mesmo sexo na Europa pré-moderna (1994) a existência de manuscritos que comprovam a celebração de rituais matrimoniais religiosos durante toda a Idade Média por sacerdotes católicos e ortodoxos para consagrar uniões homossexuais.
Nos 80 manuscritos descobertos por Boswell sobre as bodas gays entre os primeiros cristãos, invocava-se como protetores os santos católicos Sérgio e Baco, tidos como homossexuais. Celebrados no dia 7 de outubro, São Sérgio e São Baco aparecem juntos em toda a iconografia religiosa a partir do século IV depois de Cristo e atualmente são objeto de homenagem de vários artistas plásticos ligados ao movimento LGBT. Soldados do imperador romano Maximiano, foram ambos martirizados por se recusar a entrar em um templo e adorar Júpiter. Baco, flagelado com chicotadas, morreu primeiro. Uma crônica, provavelmente do século- X, conta que Sérgio "com o coração enfermo pela perda de Baco, chorava e gritava: ‘te separaram de mim, foste ao Céu e me deixaste só na Terra, sem companhia nem consolo'".
Em fevereiro deste ano, o pesquisador e professor de Literatura Carlos Callón, da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, foi premiado pelo ensaio Amigos e Sodomitas: A configuração da homossexualidade na Idade Média, onde conta a história de Pedro Díaz e Muño Vandilaz, protagonistas do primeiro matrimônio homossexual da Galícia, em 16 de abril de 1061. No documento, o casal compromete-se a morar juntos e se cuidar mutuamente "todos os dias e todas as noites, para sempre". Segundo Callón, há muitos relatos semelhantes, inclusive com rituais religiosos similares aos heterossexuais, com a diferença de que as bênçãos faziam alusão ao salmo 133 ("Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos"), ao amor de Jesus e João ou a São Sérgio e São Baco.
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Sem dogmatismo: Gondim, evangélico contra os excessos neopentecostais. Foto: Olga Vlahou
"Trato também na pesquisa de como na lírica ou na prosa galego-portuguesa medievais aparecem alguns exemplos de relações entre homens", diz o professor. "As relações homossexuais são documentáveis em todas as épocas, o que houve foi um processo de adulteração, de falsificação da história, para nos fazer pensar que não." Outro dado importante ressaltado pelo pesquisador é que a perseguição contra os homossexuais vem originalmente do Estado. Só mais tarde a Igreja se converteria na principal fonte do preconceito.
"Os traços básicos do preconceito contra a homossexualidade tiveram sua origem na Baixa Idade Média, entre os séculos XI e XIV. É nessa altura que emerge a intolerância homofóbica, desconhecida na Antiguidade. Inventa-se o pecado da sodomia, inexistente nos mil primeiros anos do cristianismo, a englobar todo o sexo não reprodutivo, mas tendo como principal expoente as relações entre homens ou entre mulheres. Com o tempo, passará a ser o seu único significado", explica Callón.
De fato, a palavra "sodomia" para designar o coito anal em geral e as relações homossexuais em particular, e ao que tudo indica foi introduzida na Bíblia por seu primeiro tradutor ao inglês, o britânico John Wycliffe (1320-1384). Wycliffe traduziu o termo grego arsenokoitai como "pecado de Sodoma". Daí a utilização da palavra "sodomita" para designar os gays, o que acabou veiculando-os para sempre com o relato bíblico das pecadoras cidades de Sodoma e Gomorra, destruídas por Deus com fogo e enxofre para punir a imoralidade de seus habitantes. Mas o significado real de arsenokoitai (literalmente, a junção das palavras "macho" e "cama") é ainda hoje alvo de controvérsia.
O próprio termo "homossexual" para designar as pessoas que preferem se relacionar com outras do mesmo sexo é recente: só passou a existir a partir do século XIX. A versão revisada em inglês da Bíblia, de 1946, é a primeira a utilizá-lo. Isto significa que as menções à "homossexualidade", "sodomia" e "sodomitas" nas escrituras seriam mais uma questão de interpretação do que propriamente de tradução.
"A Bíblia, infelizmente, tem sido usada para defender quaisquer posicionamentos, desde a escravidão (sobram textos que legitimam a escravatura) ao genocídio", opina o pastor Ricardo Gondim, da Igreja Betesda de São Paulo, protestante. "Como o sexo é uma pulsão fundamental da existência, o controle sobre essa pulsão mantém um fascínio enorme sobre quem procura preservar o poder. Assim, o celibato católico e a rígida norma puritana não passam de mecanismos de controle. O uso casuístico das Escrituras na defesa de posturas consideradas conservadoras ou ‘ortodoxas' não passam, como dizia Michel Foucault, de instrumentos de dominação."
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"Um teólogo que eu admiro muito, Carlos Mesters, costuma dizer que a Bíblia é uma flor sem defesa. Dependendo da mão e da intencionalidade de quem a usa, a posição mais castradora ou a mais libertadora pode ser defendida usando-a", concorda a pastora Odja Barros, presidente da Aliança de Batistas do Brasil, espécie de dissidência da Igreja Batista que aceita homossexuais entre seus integrantes - são seis igrejas no País. Tudo começou há cinco anos, conta Odja, quando se colocou diante de sua igreja, em Maceió, o desafio: um homossexual converteu-se e não queria abrir mão de seu gênero. Foi uma pequena revolução. Alguns integrantes deixaram a Igreja, outros se juntaram a ela, e houve fiéis que, animados, também resolveram se revelar homossexuais. "Em todas as comunidades evangélicas existem gays, mas são reprimidos", afirma a pastora.
Um dos pontos principais para a compreensão da questão à luz da Bíblia, de acordo com Odja Barros, é desconstruir as leituras mais hegemônicas, patriarcais, que afetam a vida não só dos gays, como das mulheres. Há trechos, por exemplo, que justificam a submissão e a violência contra a mulher. A própria Odja só se tornou pastora graças a essa releitura. "As pessoas vêm me dizer que sou feminista, que sou moderna, mas me sinto muito fiel a algo -muito -antigo, que é a defesa da dignidade do ser humano sobre todas as coisas. O Evangelho tem a ver com esses valores", argumenta. "A sociedade caminhou mais rápido e é um desafio à Igreja, quando deveria ser o contrário."
Entre os católicos, curiosamente, a homossexualidade não é vetada a partir da Bíblia, mas a partir da concepção de que seria antinatural, ou seja, fora do objetivo da procriação. É assim, até hoje, que prega a Igreja, daí a condenação também ao uso de contraceptivos como a camisinha. Tudo isso vem de uma época em que se conhecia muito pouco de biologia. A descoberta do clitóris como fonte do prazer feminino, por exemplo, é do século XVI. O ovário, que sacramentou a diferença entre homem e mulher, só foi descoberto no século XVIII. Até então, pensava-se que a mulher era um homem em desvantagem, um corpo masculino "castrado".
"Além disso, hoje temos conhecimento de uma gama impressionante de comportamentos sexuais entre os animais, o que inclui homossexualidade e hermafroditismo", defende o padre católico James Alison, britânico radicado em São Paulo. Homossexual assumido, Alison conta que se situa numa espécie de "buraco negro" em que se encontram, segundo ele, muitos padres católicos gays: sem função como párocos, não estão subordinados a bispos e, por isso mesmo, escapam de sanções da Igreja. O padre, que vive como teólogo, compara a homossexualidade a ser canhoto. Ou seja, um porcentual- da população nasceria -homossexual, assim como nascem pessoas que escrevem com a mão esquerda. "Aproximadamente 9,5% das pessoas são canhotas e isso também já foi considerado uma patologia."
Alison conta que a Igreja Católica faz um malabarismo ideológico para sustentar a proibição de ser homossexual-, pois no ensino teológico do Vaticano o fato em si não é considerado pecado. "Eles dizem que ‘enquanto a inclinação homossexual não seja em si um pecado, é uma tendência para atos intrinsecamente maus', uma coisa confusa e insustentável a essa altura." O padre acredita, porém, que a aceitação da homossexualidade pelos católicos melhorou sob Bento XVI. "Neste tema, os prudentes calam e os burros gritam. João Paulo II promovia os gritões. Hoje a tendência é prudência. Já não se veem bispos falando publicamente que é uma patologia. Se a Igreja reconhecer que não há patologia, será natural reconhecer a homossexualidade. É um lado bom de Ratzinger, mas tudo isso ocorre caladamente, nos bastidores da Igreja."
Para o padre, a falta de discussão no catolicismo sobre a homossexualidade "emburreceu" as pessoas para o debate em torno da pedofilia, que tanto tem causado danos à imagem da Igreja nos últimos anos. Daí a reação lenta diante das denúncias. E também se tornou um obstáculo à evangelização. "A homofobia instintiva já não é mais realidade, há cada vez mais solidariedade fraterna concreta. Muitos jovens são por natureza gay friendly. E se perguntam: por que seguir Jesus se tenho de odiar os gays?"

Carta Capital




domingo, 20 de novembro de 2011

Identidade, uma ideia repressiva (Marcelo Hailer)

A mulher vai ao médico faz o exame e o doutor detecta que o seu filho é um "menino".  A partir deste momento toda uma identidade começa a ser construída: a profissão que vai seguir, o nome, as compras de roupas em tons que não remetam ao feminino ou ao gênero contrário daquele que foi detectado pelo instrumento medicinal. Toda uma opressão mascarada de identidade já nasce a partir daquela consulta.

Esta é a primeira fase do que a socióloga Berenice Bento chama de "heteroterrorismo".  A segunda começa quando o corpo irrompe no mundo e todos aplaudem o seu choro, que podemos desconfiar ser de tristeza, triste por que já deve imaginar o que vem pela frente. Pois bem, esta criança que possui um pênis e logo deve ser encarada e formatada enquanto macho e heterossexual devera passar por uma série de testes e comprovações para que não restem dúvidas quanto a sua virilidade.

Todo um texto cultural - normativo é ensinado a este jovem garoto, mas um texto que não lhe dá alternativas, lhe impõe regras opressivas. Por todos os lados, dentro e fora de casa, este jovem receberá códigos que dizem respeito ao estilo comportamental que deram o nome (identidade) de heterossexualidade, ou seja, a matriz heterossexual o cerca por todos os lados: desenhos, brinquedos, escola, mãe e pai, sexualidade, roupa e esportes que deve praticar.

Se de repente este jovem do gênero masculino dá indícios de certa rebeldia e não quer brincar de Rambo, mas de Barbie, ele está perdido. Aí começa a terceira fase do "heteroterrorismo", que é a opressão da identidade viril masculina. Se o garoto não corresponder aos códigos masculinizantes da matriz heteronormativa está perdido e a exclusão e opressão são os únicos caminhos que o aguardam.

Por conta desse fosso criado pela matriz em questão surgiram também às políticas de valorização das outras identidades, aquelas que vivem na margem (ainda vivemos no espaço abjeto, não se enganem) e que podemos chamar de políticas afirmativas. Mas, estas políticas não vieram para transformar, mas sim para criar e reforçar outras identidades, estas também repressivas: homossexual e bissexual. Estes códigos ainda correspondem à matriz heteronormativa, pois se pautam pelo sexo penetrativo e pelo passivo-ativo/ masculino-feminino/ procriação.

Portanto vivemos sob a tríade identitária e repressora: heterossexual - homossexual - bissexual. Dentro desta lógica heteronormativa, onde reina a opressão pela obrigação de seguir uma identidade, não há escapatória. Ansiedade e neurose é o que resta dentro desta conta. É necessário que as identidades venham abaixo. É preciso que se pergunte: realmente precisamos de uma identidade? E se precisamos, não temos o direito de criar uma sem que precisemos corresponder aos dispositivos medicinais, culturais e religiosos? Até que ponto as políticas afirmativas tem utilidade e não acabam por reforçar uma repressão que tem outro nome? O que significa o nome que nos é dado?

O nome, assim com o corpo, está repleto de signos que carregam dispositivos criados. Se você é "Thiago", uma série de características lhe são atribuídas, se é Rodrigo, se é João, e por aí vai. Esta matemática nos deixa claro que as identidade não passam de criações para reprimir o verdadeiro sujeito. Aquele que nasce sem códigos e cortes culturais. Enquanto vivermos cercados por identidades, sejam elas políticas, regionais/ geográficas, sexuais, étnicas etc, teremos que sempre corresponder a algo. Também é preciso construir uma sociedade livre dos dispositivos e classificação medicinais. Onde tudo começa e termina.

O que é uma identidade? 

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